quarta-feira, abril 27

Não desanimes. Persiste mais um tanto. Não cultive pessimismo. Esquece as sugestões do medo destrutivo. Segue adiante, mesmo varando a sombra dos próprios erros. Avança ainda que seja por entre lágrimas. Trabalha constantemente. Edifica sempre. Não consintas que o gelo do desencanto te entorpeça o coração. Não te impressione a dificuldade. Convence-te de que a vitória espiritual é construção para o dia-a-dia. Não desista da paciência. Não creias em realização sem esforço. Silêncio para a injúria. Esquecimento para o mal. Perdão às ofensas. Recorda que os agressores são doentes. Não permitas que os irmãos desequilibrados te destruam o trabalho ou te apaguem a esperança. Não menosprezes o dever que a consciência te impõe. Se te enganaste em algum trecho do caminho, reajusta a própria visão e procura o rumo certo. Não contes vantagens, nem fracassos. Estuda buscando aprender. Não te voltes contra ninguém. Não dramatizes provocações ou problemas. Conserva o hábito da oração para que se te faça luz na vida íntima. Resguarda-te em Deus, persevera no trabalho que Deus te confiou. Ama sempre, fazendo pelos outros o melhor que possas realizar. Age auxiliando. Serve sem apego. E assim vencerás.Emmanuel Médium: Francisco Cândido Xavier

terça-feira, abril 19

Fique perto meu coração, daquele que conhece teus caminhos;
Venha para a sombra da árvore que sempre tem flores frescas.
Não vagabundeie preguiçosamente pelo bazar dos perfumistas;
Fique na loja do vendedor de açucar.
Se você não encontra equilíbrio verdadeiro, qualquer um pode lhe enganar com um objeto de palha,
Fazendo-lhe crer que se trata de ouro.
Não se agache com uma tigela diante de todo caldeirão que ferve;
Em cada caldeirão sobre o fogo, você encontrará coisas diferentes.
Nem toda cana tem açucar, nem todo abismo um pico;
Nem todos os olhos possuem visão, nem todo o oceano está cheio de pérolas.
Oh, rouxinol, com sua voz de mel escuro! Continue lamentando-se!
Só teu êxtase embriagado pode penetrar o duro coração da rocha!
Te entregue a ti mesmo, e se você não puder ser recebido pelo Amigo,
Saiba que internamente você está se rebelando,
Como uma linha que não quer entrar pelo buraco da agulha!
O coração desperto é uma lâmpada; proteja-o nas dobras de teu manto!
Corra e saia desta ventania, pois o tempo é ruim.
E quando você tiver deixado essa tempestade, chegará a uma fonte;
Você encontrará um Amigo que sempre nutrirá tua alma.
E com tua alma sempre verde, você crescerá em uma alta árvore
Sempre florescendo como fruta leve e doce, cujo crescimento é interior.
Jalaluddin Rumi.

Prece de Meimei

A energia que vem das flores e das cachoeiras

Avalokiteshvara

terça-feira, março 15

Gentileza gera felicidade!!!

Rosana Braga no seu livro “O poder da gentileza”, lista 10 dicas para facilitar a prática diária da gentileza. Ela acredita que se conseguirmos incorporar pelo menos algumas dessas ações, nossa vida já se tornará bem mais leve e gostosa.


1. Tente se colocar no lugar do outro. Isso o ajuda a entender melhor as pessoas, seu modo de pensar e agir.

2. Aprenda a escutar. Ouvir é muito importante para solucionar qualquer desavença ou problema.

3. Pratique a arte da paciência. Evite julgamentos e ações precipitadas.

4. Peça desculpas. Isso pode prevenir a violência e salvar relacionamentos.

5. Pense positivo. Procure valorizar o que a situação e o outro têm de bom e perceba que este hábito pode promover verdadeiros milagres.

6. Respeite as pessoas quando elas pensarem e agirem de modo diferente de você. As diferenças são uma verdadeira riqueza para todos.

7. Seja solidário e companheiro. Demonstre interesse pelo outro, por seus sentimentos e por sua realidade de vida.

8. Analise a situação. Alcançar soluções pacíficas depende de se descobrir a raiz do problema.

9. Faça justiça. Esforce-se para compreender as diferenças e não para ganhar, como se as eventuais desavenças fossem jogos ou guerras.

10. Mude a sua maneira de ver os conflitos. A gentileza nos mostra que o conflito pode ter resultados positivos e ainda tornar a convivência mais íntima e confiável.


E então, qual vai ser sua próxima gentileza?

segunda-feira, março 14

Em casa, de molho....

“Os seres humanos comuns nunca experienciam o verdadeiro sofrimento e a verdadeira tristeza, pois eles vivem vidas mecânicas e rotineiras, e seus problemas são rotineiros, automáticos e inescapáveis. Mas uma pessoa que por vontade própria assumiu a extraordinária e desnecessária sobrecarga do trabalho, somente ela sabe o sabor da verdadeira tristeza e dos males do coração, pois sofrerá a dor e as pressões que a vida comumente não requer.” Gurdjieff.
Osho comenta:
Somente um homem como Gurdjieff, poderia fazer tal afirmação. Mas ela é, de fato, verdadeira. Ele está dizendo:
“Os seres humanos comuns nunca experienciam o verdadeiro sofrimento e verdadeira tristeza, pois vivem vidas mecânicas e rotineiras…”
Não é que não haja sofrimento, mas eles estão acostumados a ele. Em segundo lugar, o sofrimento deles é reprimido. Eles vivem numa camada muito estreita de consciência; por baixo, ele está no inferno. De vez em quando ele vem à tona, mas, de um modo geraal, o ser humano comum vive toda sua vida sem saber quanto sofrimento, quanta miséria ele carrega dentro de si.
De certo modo, ele é feliz e, de outro modo, o mais infeliz, porque se tivesse se tornado cosnciente de sua miséria e sofrimento, não haveria ninguém que pudesse impedi-lo de sair fora dessa inconsciência, sair fora dessa vida mecânica rotineira e tornar-se um ser acordado, consciente.
Domínio da inconsciência
Mas eu digo, que por outro lado, ele é feliz, porque ele não sabe que está carregando um inferno inteiro dentro de si mesmo. Basta uma espetada no seu saco de bagagem e você verá quanta miséria, quanto sofrimento. As pessoas nem sequer falam sobre essas coisas, porque até as palavras podem provocar o emergir de seus próprios sofriementos à superfície. As pessoas não falam da morte…
Eis o que Gurdjieff está dizendo: O verdadeiro sofrimento e a verdadeira tristeza nunca se tornam uma experiência para o ser humano comum. E, ao dizer “ser humano comum”, ele não está condenando ninguém. Ele está simplesmente dizendo: todo ser humano inconsciente é um ser humano comum. Ele não tem consciência nem de si mesmo – o que pode ser mais comum? Ele viveu uma vida de setenta anos e não se encontrou.
Mas a razão é que as pessoas criam barreiras entre elas mesmas e suas realidades inconscientes, que contêm vidas de sofrimento, de dor. Elas têm medo de se confrontar com isso. E a menos que o encarem, não poderão encarar aquilo que é nossa verdadeira natureza – nossa eternidade, nossa alegria, nossa dança, nossas flores.
As pessoas não podem alcançar suas próprias flores. Existe uma grande barreira de sofrimento reprimido no inconsciente…
E você sabe como o sofrimento é reprimido. por exemplo, alguém morre e você começa a chorar. Imediatamente, algum sábio vai lhe dizer: “Não seja emotivo: a morte é uma coisa natural, acontece a todo mundo. Não há nada nela. E lágrimas não é coisa de homem. Você é uma mulher?”.
A verdadeira fonte da vida
Mesmo a garotos pequenos se diz: “Não seja maricas!”. Seus pais morreram e eles não podem chorar, porque isso os deixaria expostos… – eles não seriam homens, fortes, não-emotivos, corajosos, que podem encarar tudo.
Esse choro e lágrimas são permitidos às mulheres.
Mas isso não quer dizer que essa afirmação é verdadeira somente em relação aos homens e não às mulheres. Ela é mais verdadeira quanto aos homens, mas também é verdadeira quanto às mulheres. Elas também vão reprimindo suas tristezas, suas misérias, de modos diferentes. Apenas o modo é diferente. Elas se distraem com suas jóias, com a televisão, fazendo compras, indo daqui para ali, falando sem parar. Elas estão evitando algo, fugindo de algo. Elas não querem ver aquilo; querem se esquecer das feridas que existem dentro.
Assim, de certo modo, elas são felizes, mas não realmente. Os verdadeiramente afortunados são aqueles sobre quem Gurdjieff diz:
“…um ser humano que por vontade própria assuimiu a extraordinária e desnecessária sobrecarga do trabalho…”
Olhe para suas palavras: nenhum mestre foi capaz de fazer tais afirmações… – é por isso que ele foi o homem mais mal compreendido que se possa imaginar. Ele está dizendo: “Um ser humano que por vontade própria assumiu a extraordinária e desnecessária sobrecarga do trabalho…”.
E por “o trabalho” ele quer dizer cavar dentro da sua inconsciência, indo tão fundo quanto possível. A menos que você alcance a verdadeira fonte da sua vida, você terá de sofrer muito.
As marcas do tronco
É desnecessário, diz ele, porque você pode viver como uma pessoa comum. Ninguém o está obrigando. É extraordinário, porque as pessoas comuns vão à igreja, não para dentro de si mesmas. Elas lêem a Bíblia, elas não lêem seus próprios inconscientes. Elas fazem adoração no templo, mas elas não se expõem na meditação.
Gurdjieff costuma dar o nome de “trabalho”, porque ele é assumido somente por pessoas muito inteligentes, corajosas, fortes – pela simples razão de que você pode viver sem entrar em tudo isso, você pode apenas ser um agente ferroviário por toda sua vida, ou um negociante, ou um funcionário, ou um padre. Não há nenhuma necessidade de se entrar em tal sofrimento e tristeza.
Mas você não escapará disso. Mesmo na sua próxima vida, isso continuará, e acumulará masi sofrimento desta vida. Cada vida, camada após camada, vai coletando tudo que não foi vivido, expresso, que ficou inacabado, não-vivido, reprimido.
No budismo – e talvez somente no budismo – há uma técnica para se descobrir quantas vidas você já viveu antes. E o modo é contar as camadas – da mesma foram que ao cortar o tronco você sabe da vida da árvore pelos círculos, quantos anos elas tem, porque a cada ano um círculo é feito. Assim, se a árvore tem duzentos anos de idade, você encontrará duzentos círculos na madeira.
Exatamente do mesmo modo, cada vida deixa um círculo de sofrimento e tristeza dentro de você. Isso pode ser contado, a quantas vidas você vem reprimindo, quantas vidas você viveu antes. Mas, quanto mais você viveu, mais difícil se torna entrar no seu reino interior.
A única ponte
O sacerdote comum, o pregador fala sobre coisas lindas – boas ações, virtude, caridade, compartilhar…e você entrará no reino de Deus. Não é tão fácil assim. Primeiramente, você tem de acabar com todo seu inconsciente. E esse inconsciente é o que os místicos chamam de “a noite escura da alma”.
Somente gente muito inteligente assumirá essa carga desnecessária, porque:
“…somente ele sabe o sabor da verdadeira tristeza e do mal do coração, pois ele sofrerá a dor e as pressões que a vida comumente não requer.”
Você pode viver muito superficialmente, você pode evitar a noite escura da alma, mas se você evitar a noite escura da alma, você estará evitando todos os seus tesouros. Você estará evitando o próprio siginficado da sua vida e existência. Desse modo, o ser humano inteligente assume o desafio e entra no túnel escuro, que parece ser sem fim. Mas ele termina um dia. Se você for com coragem, sabendo que pessoas foram além dele – essa é a beleza de se estar com um mestre, porque você sabe que, pelo menos, um exemplo está diante de você e com você, alguem que está esperando fora do túnel e que o está chamando constaantemente para entrar no túnel…porque, a menos que você entre, você não pode sair dele. Não há como se desviar dele.
Há milhares de impostores no mundo, e o trabalho deles é o de lhe dizer como se desviar da escuridão e do sofrimento e da tristeza e simplesmente tornar-se um iluminado. Basta uma meditação trnascendental, repetindo um certo nome, e você se tronará uma alma realizada. Não há nenhuma conexão nisso, não há nenhum trabalho autêntico. O que acontecerá ao seu insconciente? O que acontecerá ao seu inconsciente coletivo? Você esta tentando desviar-se deles, simplesmente abandonando-os. Esse não é o caminho.
O caminho vai através deles, sabendo perfeitamente que há alguem com você que já atravessou e foi além. Não que você precise, como uma absoluta necessidade, da presença de um mestre. Se você tem o coração e a confiança, até mesmo um Gautama Buda, de vinte e cinco séculos atrás, servirá. Depende da sua confiança, porque sempre houve pessoas, por todo o mundo, confirmando isso: “Simplesmente entre atentamente na escuridão do inconsciente, acordado, alerta, porque esse é o único modo de passar através disso.”. A consciência é a única ponte entre você e o seu supremo florescimento.
Osho – tradução de Ma Anand Samasthi.

segunda-feira, janeiro 24

E Lana deixou o bico...Papai Noel levou...


E não é que deu certo?

O que no início era só uma tentativa aflita de fazer a Lana largar o bico..acabou dando certo, quando nem nós acreditávamos mais...

Depois de passarmos o Natal em Pelotas, na casa dos avós...e presentes pra cá, bico pra lá...e mais bico, e mais presentes....na hora de virmos embora o bico desapareceu...e não estava nada combinado....

E ela veio...chorou, dormiu....chorou por uma semana, ganhou a Leleca pra dormir com ela....e agora já dorme sem bico e sem Leleca.

Papai Noel conseguiu...enfim, vimos que nem foi tão difícil como parecia....

Agora ela vai fazer 4 anos e sem bico....belezura!!!

sábado, outubro 30

A Mulher Madura

Affonso Romano de Sant'Anna


O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85)


O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 09.

Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".

Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna


Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.


O texto acima nos foi enviado, gentilmente, pelo próprio autor.

Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias"."

sexta-feira, setembro 24

Primavera



Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega. Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores. Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende. Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol. Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz. Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou. Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.